Carnaval: símbolo da cultura nacional


“O carnaval é o momento histórico do ano. Paixões, interesses, mazelas, tristezas, tudo pega em si e vai viver em outra parte”, assim Machado de Assis começava a crônica de 16 de fevereiro de 1896, publicada na Gazeta de Notícias. Pode surpreender encontrar no texto de um dos mais importantes escritores da língua portuguesa, sério e tímido, a revelação sobre seu encanto pelo carnaval – ainda mais em se tratando de crônica e não de ficção. Mas a verdade é que, o evento que, praticamente, inaugura todo ano novo no Brasil, faz parte da cultura nacional de tal modo que é impossível lhe passar incólume. A festa embaralha fronteiras étnicas e ajuda a compor a identidade nacional.
De origem europeia, o carnaval aportou no Brasil, a princípio destinado à elite. No entanto, também caiu no gosto popular, que lhe acrescentou pitadas da cultura africana, criando uma feição única. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, autora do livro Carnaval brasileiro: o vivido e o mito,  “a divisão da festa carnavalesca brasileira em dois ‘carnavais’, um Grande e um Pequeno, aconteceu no final do século XIX, com a ascensão de grupos populares no Rio de Janeiro”.
Essa ascensão do carnaval popular foi o resultado de uma série de fatores, entre eles alguns que nada tinham a ver com as classes mais populares. É preciso lembrar que nos anos 20, a intelectualidade brasileira envolvida no movimento modernista, voltava os olhos para o exterior de forma a constituir parâmetros que lhe permitisse enxergar os traços que compunham a identidade da nação. Enquanto parte dos intelectuais optava pelo nacionalismo ufanista, outra parte buscava nas manifestações populares, na diversidade cultural brasileira, peças para compor a identidade de um país ainda muito novo. Não à toa, Mário de Andrade empreende uma viagem de reconhecimento por um Brasil ainda desconhecido dos brasileiros, em busca de nossas raizes, de um retrato que revelasse o coletivo.
Segundo o sociólogo Renato Ortiz, não é a manifestação popular que dará à festa o status de símbolo da cultura nacional, mas sim a aprovação dessa intelectualidade brasileira, que a define como parte da identidade nacional. “É por meio do mecanismo de reinterpretação que o Estado, através dos seus intelectuais, se apropria das práticas populares para apresentá-las como expressões da cultura nacional. O candomblé, o carnaval, os reisados etc., são, desta forma, apropriados pelo discurso do Estado, que passa a considerá-los como discurso da brasilidade”, explica Ortiz em Cultura brasileira e identidade nacional.
Para além da análise histórica e sociológica, o carnaval se tranformou, inegavelmente, numa importante experiência coletiva, momento de catarse e auto-afirmação para o brasileiro. Curiosamente, após um longo período de incertezas políticas e econômicas, voltam a surgir com força, em diversos locais do Brasil, as manifestações do carnaval de rua. O Rio de Janeiro, por exemplo, nunca teve tantos blocos como agora, lotados por gente de todas as classes sociais. Ao todo são 465 blocos e bandas oficialmente autorizados a desfilar pelas ruas da cidade.
Tomando emprestadas as palavras do antropólogo Roberto da Matta, “o carnaval é um momento em que se podem totalizar gestos, atitudes e relações que são vividas e percebidas como instituindo e constituindo o nosso próprio coração”. Bom carnaval a todos!

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